Cuidado com o Monstro do Desejável
Toda cultura tem sua mitologia. E toda mitologia tem seus seres imaginários.
E a T.I. não poderia ser diferente.
Estes seres podem ser belos ou medonhos. Podem ajudar ou atrapalhar, esclarecer ou assombrar.
Hoje vou falar de um monstro que assombra muitos projetos por aí, e que é conhecido como Monstro do Desejável.
O Monstro do Desejável inicialmente não tem essência nem vida própria. Como um espírito do além, ele precisa de alguém para conjurá-lo. Inicialmente ele aparece como uma idéia interessante, mas nada factível. Até o momento que alguém se apaixona por ela. Nesse momento nasce o Monstro do Desejável. E gruda na parte de trás da cabeça de seu pai/mãe e fica lá, sussurrando coisas no seu ouvido que só os dois entendem (e acreditam).
Ok, ok, vocês devem estar achando que eu endoidei e que isso aqui virou um episodio de “Contos da Cripta” . Na verdade o Monstro do Desejável é uma figura de linguagem que criamos aqui na empresa para evitar uma moléstia que quando se instala, termina prejudicando o projeto.
Tudo começa igual na lenda. Projeto andando, tudo definido, tudo bacana. Dificuldades normais aparecendo (afinal trata-se de um projeto de T.I.), mas nada além da conta. Novos requisitos surgindo (normal), domínio sendo mapeado (normal), testes quebrando (normal normal normal) e sendo consertados (normal elevado a n). Até que alguém tem uma idéia muito legal (mas nada factível)…
Mas qual o problema com ter ideias, você deve estar perguntando?
Ideias são boas. São elas que geram avanço, progresso, etc etc etc.
Concordo caro leitor. O problema é que ser legal não significa ser factível.
Seguindo a historia, alguém tem uma idéia muito legal (mas nada factível)….
Pode ser aquele desenvolvedor
“Poxa pessoal, podíamos usar aquele framework novo XPTOW do qual esta todo mundo falando.”
“Mas o cliente pediu que fosse feito em (coloque aquela tecnologia que sua equipe/empresa domina aqui). Fomos contratados porque somo especialistas nisso…”
“Ah, mas quem entende de T.I.? Nós ou o cliente? Ia ser tão legal aprender a usar XPTOW, ainda mais num projeto importante como esse…”
Ou aquele gerente
“Pessoal, sei que o projeto tem duração de oito meses. Mas seria muito bom que fosse feito em quatro. Dai teríamos mais tempo para pegar o projeto Y. O que vocês acham?”
Todo mundo pensa, coça a cabeça até que alguém fala:
“Bom talvez seja possível reduzir para sete meses. Seis e meio no máximo.”
“Ah, mas seria tão bom. Será que não rola de tentar?”
A pergunta é: É factível?
No primeiro caso sei que muita gente já deve estar querendo me jogar pedra, falando que eu sou contra o uso de novas tecnologias. Sou totalmente a favor. Só que um projeto tem seus prazos e custos estimados em cima de fatos. FATOS. Entre eles a produtividade. Treinar um time em uma nova tecnologia on the fly (o famoso “aprender fazendo”) é um tremendo risco que pode colocar qualquer projeto no chão. Pode ser “legal”, mas quem arca com o risco?
O segundo caso é o mais clássico (tratando-se do nosso amigo Monstro). Sim seria muito bom para qualquer empresa se pudéssemos dobrar nossa produtividade quando quiséssemos. Mas não é possível. É somente desejável. E só. Se um projeto foi estimado em X meses, é porque X meses ele deve durar, cortar um pouco até que é possível, mas mudanças radicais só com alterações do projeto inteiro. Ou com mágica.
O problema é que é nessa hora que o Monstro do Desejável deve ser eliminado, mandado de volta pra “terra das idéias legais (mas nada factíveis)” de onde ele veio. Na hora que ele nasce.
O problema é que para isso acontecer, para ele ser eliminado, alguém precisa falar pro pai/mãe do Monstro “Olha, seria legal. Mas não é factível”.
E é ai que muitas equipes falham, porque ninguém quer ser tachado de chato/estraga prazeres/portador de más noticias. E é em cima dessa omissão que o Monstro do Desejável nasce, cresce e domina seu hospedeiro.
E a partir daí a coisa só piora, voltando ao exemplo, você começa a ouvir
Desenvolvedor:
“Calma, galera. Sei que o XPTOW tem esses bugs. E também sei que o projeto dele no SourceForge foi encerrado. Mas vamos em frente. Vai dar tudo certo no fim.”
ou
Gerente
“Uai, mas vocês não falaram que era possível fazer em quatro meses. Só que agora a gente vai ter que fazer em três, ok?”
Não, ninguém falou que era possível. Ou melhor, ninguém da equipe. Quem falou foi o Monstro do Desejável no ouvido do gerente do exemplo.
O Monstro do Desejável é assim, faz o seu hospedeiro parar de perceber a realidade. Ele passa a perseguir seu objeto de desejo, mesmo que todos os indícios mostrem que aquilo é impossível. O mundo vai acabando e o Monstro do Desejável vai sussurrando no ouvido do hospedeiro “O que você quer é possível sim. Se eles falarem que não possível, é má vontade”.O Monstro do Desejável tem o poder de transformar nosso talvez de ontem num sim e nosso “posso tentar” num “pode contar com isso com total certeza”. Nosso “acho bem complicado” em “aposto meu emprego que dou conta”.
Tudo vale a pena se for possível. E é responsabilidade de toda equipe se posicionar para alcançar um objetivo viável bem como não permitir que riscos desnecessários sejam incluídos em um projeto. E da mesma forma que eu falei em um post passado sobre a necessidade de saber a hora de sair também existe a hora de se posicionar.
Solução: Mate o Monstro do Desejável quando ele aparecer.
Sentiu que ele esta tentando atacar alguém (lembre-se, a palavra chave é “Factível”), bala nele. Viu ele se aproximando dos ombros do seu gerente, ative o lança chamas. Viu aquele brilho da “idéia muito legal (mas nada factível)” aparecendo nos olhos de alguém, nada de correr pras colinas. Enfrente o bicho de frente.
Essas frases mágicas podem te ajudar:
“Não, não dá. É impossível”
“Não, não vale a pena”
“Seria legal, mas é muito arriscado”
Seus projetos vão agradecer.

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