O que a Internet está escondendo de você?

É indiscutível a necessidade que temos, devida a quantidade de informação disponível, de que, o que chega até nós tenha certa relevância. Diferentes campos de estudo dentro da computação tratam exatamente disso, como o caso da Recuperação de Informação. Existe um método chamado de “filtragem” em que se remove conteúdos redundantes ou indesejados de um fluxo de informações através de métodos automatizados (ou semi) antes da apresentação para um usuário humano.

Seu objetivo principal é a gestão da sobrecarga de informações e incremento da taxa sinal/ruído de resultado. Para isso o perfil do usuário é comparado com algumas características de referência. Essas características podem ser provenientes do item de informação (a abordagem baseada em conteúdo) ou ambiente social do usuário (a abordagem de filtragem colaborativa – quem utiliza fornece as informações).

Essa técnica é muito utilizada em sistemas de recomendação que tentam apresentar itens que o usuário está interessado (cinema, televisão, música, livros, notícias, páginas web, e-commerce) e normalmente usam abordagens colaborativas.

Mas e quando tudo o que chega até nós foi filtrado? Tudo foi moldado pelo nosso perfil? Então o usuário pensa “ah mas eu não permito que os mecanismos de buscas utilizem meus dados”. No caso de redes sociais, os seus dados já estão lá. No caso de buscas, como o Google, mesmo sem se fazer login, os conteúdos exibidos nos resultados podem ser baseados em até 57 fatores. Dentre eles, tem-se:

  • o navegador (e a versão dele) que o usuário está utilizando;
  • o modelo de computador;
  • o sistema operacional (e sua versão);
  • a resolução da tela de computador;
  • o idioma;
  • o tempo que precisamos para digitar uma consulta;
  • se foi usado a tecla enter ou o mouse para enviar uma solicitação de pesquisa, etc.

Com o usuário logado é possível obter outras informações como idade, sexo, frequência que clicamos em publicidade, quantidade média de solicitações de pesquisa por dia, número de vezes que usamos correção ortográfica e até quantas vezes procuramos por nós mesmos.

Eli Pariser, fundador do grupo de defesa de políticas públicas MoveOn.org, em uma palestra no TED, apresentou o assunto de seu livro (de mesmo nome) “The bubble filter”:

O que ele chama de bolha é o universo único e pessoal em que você vive online e explica que, o que chega até você depende de quem você é e do que você faz. Mas existe um porém, não se é possível decidir o que passa ou não pelo filtro e entra nessa bolha e o mais importante, não é possível mapear o que fica do lado de fora.

Pariser compara essa abordagem ao que acontecia na época em que a internet não existia, nós dependíamos diretamente da imprensa para obter informações e eles tinham o poder de filtrá-las. A mudança veio com o surgimento da internet mas talvez a má utilização de algoritmos de filtragem pode estar impedindo que as informações cheguem até nós.

Não acredito em uma teoria da conspiração mas vale a reflexão, afinal quando perdemos a chance de interagir com pessoas/opiniões/informações diferentes, perdemos a oportunidade de crescer.

Postado em 28 de maio de 2012 por Luana Morellato

4 Respostas para “O que a Internet está escondendo de você?”

  1. Pablo disse:

    Tema muito interessante!

    Eu já tinha percebido o quanto buscas do google e algoritmos afins tem sido cada vez mais particular de cada usuário, só não tinha conseguido ver a consequência disso de uma forma clara como mostrado no post.

    Mas como mudar isso? Estamos simplesmente a mercê dos “Senhores do Mundo”?

  2. Ricardo disse:

    Eu acho que se você procura opiniões diferentes, basta procurar por elas. Os mecanismos de busca e redes sociais são apenas ferramentas que te auxiliam a encontrar o que elas acreditam ser o mais apropriado a o que você pediu/escolheu.

    Por exemplo, se você procura por “casamento gay”, pode ser que um mecanismo como o Google priorize um tipo de visão sobre outro. Mas nada te impede de fazer um busca por “opiniões divergentes casamento gay” para encontrar vários resultados que não representam necessariamente suas preferências ou crencas em torno do casamento gay.

    Além disto, várias ferramentas incorporam o que é chamado de ‘Serendipidade’. Trata-se de introduzir nas buscas resultados ‘inesperados’ mas que podem interessar o usuário. É uma maneira de introduzir resultados diferentes e existem várias técnicas para atingir tal objetivo.

    Dito isto, eu partilho da opinião que Eli Pariser faz parte do grupo dos pessimistas tecnológicos que também incluem outros com Nicholas Carr. Mas a tecnologia está a nossa disposicão, não o contrário. Cabe a nós fazer o melhor uso delas e buscar informacões além de nossas crencas. É, aliás, gracas a Internet que isto hoje é possível de maneira tão simples.

  3. Luana disse:

    Não acredito que estamos na mão dos “Senhores do mundo”, até porque existem outros mecanismos de busca sem ser o Google e outras redes sociais além do Facebook.

    Concordo com o Ricardo com relação a trocar os termos de busca e acho interessante também o uso de feeds, em que o conteúdo que aparece lá é exatamente das fontes que queremos.

    Não acho que o autor seja um pessimista, acredito que ele está levantando um assunto que deve ser discutido. O que ele propõe é a existência de uma responsabilidade social e ética de quem nos fornece informações.

  4. Ricardo disse:

    O que o fato do assunto ser importante ou não tem a ver com ele ser pessimista/otimista? Eu acho que ele é pessimista porque ele vê as tecnologias atuais como limitadores. Do seu texto: ” não se é possível decidir o que passa ou não pelo filtro e entra nessa bolha e o mais importante, não é possível mapear o que fica do lado de fora.”

    Eu discordo disto e vejo o contrário. Gracas as tecnologias atuais temos acesso a um universo infinitamente maior de informacões potencialmente mais relevantes. E são mais relevantes porque essas ferramentas potencializam nosso poder de escolha. Existem bolhas, claro, mas quem as cria são as pessoas. E o problema maior nem são as bolhas que elas criam mas o fato de não olharem para fora dela.

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